Viver a Street Art

Grafiteiro Trampo

Grafiteiro Trampo

Grafiteiro Trampo

Andar de skate não se resume a estar em cima das quatro rodas nas ruas e pistas. Existe um forte estilo de vida que está presente na maneira de vestir, no núcleo de amigos, nas musicas, no vocabulário e até mesmo expresso na arte. O grafite é a cultura que mais se aproxima do skate, pois sua natureza está ligada à rua, talvez seja a mais democrática das artes. Mas não pegue essa característica como pejorativa, ao contrário, é um tipo de arte que dificilmente transita nestes meios. O grafiteiro é um artista como os outros, por muitos não é reconhecido como tal, mas é fato que grafite é arte tanto quanto um escultor que transforma ferro em beleza, ou um compositor que transforma palavra em poesia. O grafite é um primo pobre da pintura convencional, aquela que vemos em galerias e museus. Então como um grafiteiro sobrevive, como compra seu material de trabalho? Um escritor vende seus livros, um cantor faz shows, um pintor vende seus quadros. Qual será a opção de sustento em uma arte que tem na sua essência a rua, o espaço público?
O grafite está rodeado de preconceitos devido ao fato de muitos praticantes desse movimento serem skatistas, conectados com o mundo do street art. Essa cultura de rua vem do contato direto com o espaço público, utilizando a sua arquitetura como meio de expressão. Assim, muitos confundem grafiteiros com pichadores, pintores têm cisma com a técnica, mas o que ninguém pode negar é o impacto que essa nova expressão artística tem na vida de quem mora em uma grande metrópole. Na verdade, como diz a professora e pesquisado, Maria Beatriz Rahde, esse movimento não é tão recente:

- Graffitti é uma palavra de origem italiana que significa “escrita a carvão”, ela é antiga, e a história do graffitti é bem antiga, os romanos já utilizavam o graffitti como manifestação de protesto, o graffitti vem de séculos atrás, nas paredes de construções eles protestavam com carvão, que eram chamados de graffitti. – salienta Rahde, que tem sua linha de pesquisa voltada para a comunicação e as tecnologias do imaginário. O homem das cavernas já desenhava nas paredes as suas estórias, suas caçadas, aventuras. Segundo o grafiteiro Luis Flávio, mais conhecido como Trampo, é da natureza do homem querer perpetuar sua existência:

- O ser humano tem o hábito de querer deixar uma marca, deixar um risco, a coisa da pichação não ta só na mão da juventude, da gurizada, tem protesto no meio disso tudo, e no meio desse protesto tem política – observa Trampo, que pinta há mais de dez anos, e é referência para jovens artistas.

Arte na Cidade Baixa, Porto Alegre

Arte na Cidade Baixa, Porto Alegre

A procura por pessoas que fazem desta arte seu modo de vida e seu ganha pão não foi difícil, mas todo grafiteiro tem uma visão diferenciada sobre esta questão, o que não significa que suas opiniões sejam divergentes, afinal, como já foi dito, este assunto está cercado por polêmicas. Para Pierre da Rocha Matos, vulgo Aranha, existem dois tipos de grafite, o comercial e o espontâneo, o pago e o autoral, digamos assim :

- Eu considero grafite uma coisa e trabalho comercial uma outra coisa, é uma coisa que é sem sentimento, pronta, e o grafite é emoção, é uma coisa do coração, tem sentimento, tem alegria, tem tristeza. Quanto ao grafite comercial, não tem nada disso, é uma coisa limpa que tu vai colocar lá para o teu cliente – define Aranha, que obtém renda grafitando em lojas, pet shops e criando logomarcas.

Para Natan Silveira o trabalho remunerado é válido e faz uma comparação com a pintura convencional:

- É um trabalho, é o trabalho da arte, como se fosse um artista que vende quadro num leilão, a gente vende uma idéia no caso, né!? Um logotipo, uma pintura na frente de uma loja, a restauração de uma parede, é nosso tipo de ganhar dinheiro – exemplifica Natan, grafiteiro há oito anos, que já foi interno da Febem e hoje é dono da única loja de equipamentos para grafitagem do sul do Brasil, a Arte na Lata.

A consciência desses artistas em relação ao que realizam é assombrosa, eles possuem uma noção bem clara do que estão fazendo. E não hesitam em diferenciar o grafite de rua de um trabalho encomendado.

- Grafite é uma idéia pura que tu tem em cima de alguma coisa e tu vai lá e faz do jeito que tu quiser, com as cores que tu quiser, isso aí é grafite. Mas, agora, se o cara dizer pra ti: “Usa a tua idéia, mas tu usa vermelho, amarelo e roxo”, ele está te propondo um tema, te colocando limites, aí eu já acho que não é o grafite puro. Porque o puro é a idéia como ela veio ela vai pra parede, mas é válido, tu tem aquele dom, tu sabe fazer aquilo, porque tu não vai ganhar uma grana com aquilo? – esclarece Fernando Soares, o True, que grafita há nove anos, trabalha na loja Arte na Lata e ministra oficinas de grafite no local.

Trampo ressalta que é possível trabalhar e ganhar dinheiro sem se corromper:

- Tem maneiras de estar trabalhando com o pessoal da publicidade ou ta fazendo trabalho decoração, buscando parcerias, ou, ás vezes, com uma marca que dá liberdade pra gente estar criando e trabalhando em cima do nosso estilo sem estar si vendendo, é uma troca, é um bom negócio. É moda, hoje, esse negócio da cultura urbana, então é um momento bacana de ta se organizando e buscando essas parcerias, de pintar painel publicitário, que é um meio bacana de ta ganhando uma grana também.

A fusão skate e grafite serviu como tema da mostra cultural TRANSFER, realizada no Santander Cultural em 2008. A cultura urbana e arte contemporânea foram expostas em mais de 300 obras de acervos privados nacionais e do exterior, além de vídeos e fotografias de uma gama de materiais de mais de 100 artistas. Essa realização promoveu um amplo olhar sobre o tema e provocando reflexões sobre este movimento cultural. Um dos destaques de TRANSFER foi uma ousada instalação no saguão do prédio: uma estrutura “skatável”, ou seja, que pode ser percorrida por skatistas, criada pelo arquiteto Pedro Mendes da Rocha, com consultoria artística do coletivo Noh de skate, arte e arquitetura.

Arquitetura "skatável" no TRANSFER

Arquitetura "skatável" no TRANSFER

O grafite é uma expressão artística da rua e para rua, cada vez mais surgem novos estilos e tendências, novos artistas, novas técnicas que o enriquecem. Pode ser considerado uma profissão como qualquer outra, mas é impossível não reconhecer suas características transformadoras, libertárias, revolucionárias, fortemente ligadas as questões sociais, o que não é exclusividade desta arte, mas que o diferencia das outras por ser mais palpável, mais visível, popular, ao alcance de todos.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.